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Desastre

Sempre foi desastrado.
No colégio era o pior esportista.
Por vezes sentia que mal conseguia caminhar sem tropeçar.

Sempre encarou isso com certo bom humor.
Era engraçado, de fato, contar suas peripécias com a bola,
seus desastres diários.
Tinha outras qualidades que compensavam a falta de coordenação, afinal.

Um dia desses teve um filho.
Ficou pensando se ele compartilharia das mesmas deficiências que o pai.

Nunca soube.
A mesma coordenação que lhe faltou nos esportes
também lhe  faltou na hora impedir que seu filho se jogasse
na frente de um caminhão.

Santo

Queria ter batido nele.
Queria ter destruído seu rosto, quebrado seus ossos.
Queria ter banhado as mãos em sangue.
Queria tê-lo sentido esfacelar sob seus golpes.
Queria ter ouvido o pedido de misericórdia não atendido.

Sem razão, sem apoio. Queria ser o vilão da história.
Mas não o fez. Não agrediu sequer verbalmente.

Ao invés disso, deixou que ele se instalasse em seu corpo.
E aquela irritante benevolência cobrava mais uma vez seu preço.
Tinha um parasita, que ficaria ali, devorando-lhe vivo, destruindo-o.

Abandono

Alice foi embora duas semanas depois do incidente.

Não deixou pistas, carta ou recado. Não tinha sequer família para quem ele pudesse ligar, repartir sua dor, sua angústia. Ela simplesmente havia sumido, como se nunca tivesse existido para ele.

Para Dante, aquilo foi como a morte.

Daquele dia em diante, apenas se limitaria a respirar. Havia lutado tanto que o quadro agora estava claro para ele: havia perdido, e agora só lhe restava pensar em maneiras de coexistir com a dor.

Lama

A distância que nos separa fisicamente cresce em meus pensamentos.

Se por terra é horizontal, para mim é vertical.

Eu precisaria de asas para alcançar-te, e mesmo se as tivesse, teu brilho me cegaria.

Porque me deixa segurar-te pela perna, e puxar-te para cá, para a lama onde resido?

O mundo que tanto te quer, apenas me aceita.

Multiplicidades

Chamaram-me de monstro, de mentiroso, idiota.
Chamaram-me de honesto, sensível. Chamaram-me de amor.
E eu sou todas essas coisas.

Sentiram-se incomodados com meu comportamento inconstante, com minha carência,
com minha sinceridade e com minha doce falta de piedade.
Sentiram-se contagiados com meu bom humor e minha hospitalidade.

Sou criança, velho, amante, assassino.
E posso ser todos ao mesmo tempo,
desde que isso me divirta.

Assassino

A sensação de perda me atingiu como aquele tiro na testa.
Tudo que eu ouvi e tudo que eu vi.
São memórias que me atormentarão ao longo do caminho que ainda me resta.
Sou alvo de ódio, nojo, raiva.
Não sabia que sentiria isso algum dia.
E é tudo minha culpa.

Eu matei.

Eu perdi. Pra sempre. Nada mais vai ser como era.
E eu nunca mais vou ser o mesmo.
A vida como eu conheci acaba por aqui.

Eu só queria o inatingível perdão.
Queria tudo como era antes.
Queria voltar atrás.

AutoInsuficiente

Eu queria.

Que meus pensamentos não fossem tempestade.

Que minhas mãos não fossem terremoto.

Que meu toque não fosse fogo.

Que meus olhos não fossem ceu nublado.

Que minha mente fosse como dia claro.

Eu queria que meus passos não deixassem dúvidas.

Que minhas ações não deixassem feridos.

E que meus objetivos fossem concretos.

Eu só queria uma alma limpa, uma consciência tranquila.

Queria que meu coração fosse seu. Queria sua paz.

Para sempre.